Se alguém está tentando te ajudar, mas na verdade está te causando mais mal do que bem, você o avisaria, certo?

Se você procura por maneiras de enaltecer outras culturas, mas não pensou a respeito de uma forma de evitar apropriá-las, possivelmente você está causando mais mal do que bem. Por isso, é preciso refletir sobre apropriação cultural.

Apreciar elementos de outros povos pode remeter a intercâmbio cultural. Isso acontece caso você tenha consentimento para participar da cultura de outra pessoa, e ambas as partes se beneficiam mutuamente e aprimoram seus conhecimentos sobre cada uma.

Já o conceito de apropriação cultural toma forma quando pensamos que a sociedade se move através de relações de poder. Através dessas relações, grupos dominantes reinterpretam bens simbólicos de culturas minoritárias, esvaziando seus significados. Cria-se, então, estereótipos falsos e empobrecimento dessas culturas.

         

         

É possível que você seja entusiasta por diversas manifestações culturais do globo, desde decoração japonesa até acessórios asiáticos. Talvez você seja aquela pessoa eclética que manifesta seu estilo com uma mescla de elementos espalhados pelo mundo.

        

Provavelmente sua intenção não é a de ferir ninguém e seja apenas uma experiência estética. Mas esse “apenas” abriga um dos pontos cruciais da questão, pois é importante considerar o que é a verdadeira apreciação cultural. Ela inclui aprender sobre a cultura e, o mais importante, ouvir o que as pessoas pertencentes a ela têm a dizer. Seja por meio de sua língua, música, literatura, vestimenta, culinária ou arte.

É preciso saber ouvir

Você pode refletir sobre posição social de privilégio e ouvir o que os grupos minoritários têm a dizer. Você pode comprar do grupo artesão local.

Você é capaz de exercitar o seu pensamento crítico e refletir sobre as consequências dos seus atos?

Quando usa um um bindi no meio da testa na baladinha alternativa, por exemplo, sem nunca ter pensado que para muitíssimas mulheres do sul da Ásia é um significativo símbolo cultural e religioso.
Você pode, quem sabe, pesquisar sobre o significado de todo rigor e metodologia da decoração japonesa antes de transformar a sua casa em uma representação inconsciente, de algo tão cheio de significado.

Procurar reconhecer o universo do outro é o primeiro passo, pois:

Apropriação cultural acontece quando compramos uma bolsa inspirada no artesanato indígena, mas não o reconhecemos culturalmente como autor daquele e de muitos outros padrões utilizados pela indústria da moda.

Quando não ligamos para o fato dele não ter sido compensado por aquela criação; por sofrer um processo de apagamento simbólico.

A apropriação acontece em um cenário onde culturas dominantes se apropriam de bens simbólicos das minoritárias. Em uma estrutura industrial, esvaziam seus significados, e a reprodução em larga escala uniformiza o sujeito.
Todo esse processo acontece sob a perspectiva de que culturas minoritárias e todas as suas manifestações simbólicas precisam da aceitação das dominantes para uma espécie de validação.

Ressignificar é transcender ou apagar o valor simbólico?

Um exemplo claro é o de estilistas americanos e suas roupas inspiradas na arte indígena. Suas coleções trazem conceitos como “modernização” e “chique” junto à “primitivo” e “tribal”.

Recentemente, uma designer decidiu ressignificar o pixo para mandar uma espécie de recado para o prefeito de São Paulo.

Ela padronizou letras típicas do graffiti para ilustrar porcelanas super delicadas com frases emblemáticas, pelas ruas da cidade, e muitas foram as críticas recebidas e questões levantadas:

É preciso uma designer, em posição de privilégio, usar o graffiti em suas obras, para que ele seja aceito socialmente?

Existem vários conceitos positivos para se refletir sobre os processos de globalização: empréstimo cultural, assimilação cultural, aculturação, sincretismo. Pois é natural se pensar sobre as trocas sociais e suas implicações.

São coisas bem diferentes de APROPRIAÇÃO. Diretamente ligada a grupos hegemônicos, dominação, capitalismo e relações de poder. É nesse contexto que os atos da designer que utiliza elementos do pixo têm mais valor social do que a arte de toda uma vida de grafiteiros da periferia paulista.

Vale a pena chamar atenção para um detalhe chave de todo o bafafá a respeito de apropriação cultural: a reflexão não deveria focar no indivíduo branco que usa turbante ou dread. APROPRIAÇÃO CULTURAL acontece sob a asa de uma ESTRUTURA. Essa estrutura perpetua relações desiguais, e pensar em se colocar no lugar do outro é um complexo exercício de empatia e reconhecimento.

Esse texto quer abrir espaço para uma conversa franca e fora da curva do que tem sido martelado por aí na rodinhas de debate. Sinta-se livre para relativizar e trazer novas perspectivas.

E aí, qual é o seu posicionamento?


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