Na multidão que fazia ferver a Art Basel Miami Beach, uma das maiores feiras de arte do mundo que acontece todo mês de dezembro no balneário americano, uma mulher chamou a atenção de Kevin Systrom, criador do Instagram.

“Ela ia de quadro em quadro tirando fotos dela mesma”, conta Systrom, 31, em entrevista à Folha, no café de um hotel perto da feira. “Estamos no momento em que é possível vivenciar de forma imediata as emoções mais cruas e cheias de energia da vida.”

No mundinho da arte, isso quer dizer ver em tempo real os gatinhos fofos do artista Ai Weiwei em Pequim ou as vistas deslumbrantes da janela do curador Klaus Biesenbach, do MoMA, em Nova York.

“Quando sigo um curador ou artista, estou menos interessado no trabalho dele e mais nas coisas que ele posta”, diz Mike Krieger, o brasileiro de 28 anos que ajudou a criar a rede social. “É uma oportunidade de ver o mundo pelos olhos dos outros.

“Não são olhos quaisquer. Da mesma forma que o mundo visto pelos filtros do Instagram parece muito mais cor de rosa do que na vida real, poucos grupos sociais se prestam tanto a essa maquiagem instantânea quanto o mundo da arte, movido a dólares, egos inflados e champanhe.

“Ninguém ousa admitir, mas todos querem ser amados nesse mundo”, diz o leiloeiro suíço Simon de Pury, que fez um debate em Miami com Systrom e campeões do Instagram da arte, como Klaus Biesenbach e o todo-poderoso curador Hans Ulrich Obrist, da Serpentine, de Londres. “Queremos medir nossos likes’.”

Quando Systrom, que tem mais de 1 milhão de seguidores no Instagram, fez questão de se deslocar da Califórnia, onde mora, até Miami para dar pinta na feira, também queria saber quantos “likes” conseguiria angariar no purpurinado mundo da arte.

Nesse sentido, seu debate na Art Basel Miami Beach com Obrist e Biesenbach, cada um com quase 100 mil seguidores, equivale a tirar uma “selfie” caprichada com os mandachuvas da indústria e postar numa rede social que hoje tem 300 milhões de usuários.

“Não estamos aqui para comprar obras, mas porque acreditamos que o Instagram é uma ferramenta essencial para o mundo da arte”, diz Systrom. “Os curadores estão documentando e postando suas descobertas, e os artistas usam a rede como uma plataforma para criar novas obras.”

Em setembro deste ano, Richard Prince, um dos artistas mais influentes do mundo, mostrou na galeria Gagosian, em Nova York, nada menos do que 38 “selfies” de gente como a modelo Kate Moss e a voluptuosa Pamela Anderson que imprimiu do Instagram.

Outros artistas, entre eles o caso mais notório é o do chinês Ai Weiwei, documentam cada instante do processo de criação de seus trabalhos, usando a rede social como um termômetro do impacto que a peça pode causar mesmo antes que ela saia do ateliê.

Não demorou para o Instagram também se tornar um motor de vendas. O colecionador sul-africano Stefan Simchowitz fez –má– fama e fortuna com sua conta na rede social, capaz de alavancar artistas então desconhecidos, como o colombiano Oscar Murillo, à condição de coqueluche esfuziante do mercado.

Mesmo críticos de arte da velha guarda da imprensa escrita, como Jerry Saltz, indicado ao Pulitzer e maior nome da revista “New York”, aderiram à rede social como uma ferramenta de formação do chamado “gosto digital”.

Sua conta, com quase 80 mil seguidores, é uma avalanche de obras de arte, entre medievais e contemporâneas, seguidas de comentários mais do que ácidos.

“É muito poderoso um sistema que deixa que todos se comuniquem por meio de fotos”, diz Systrom. “Mas não são fotos fazendo papel de fotos. É comunicação direta. As pessoas estão descobrindo uma voz visual. Daqui a pouco vamos ver performances pensadas para o Instagram.”

Mesmo que isso não aconteça de forma espontânea, os fundadores da rede social já promovem eventos, desde passeios com artistas na praia, como fizeram em Miami, a visitas fotográficas a museus vazios, em que usuários influentes foram convidados a clicar lugares como o Met ou o Guggenheim, em Nova York, fora das horas de funcionamento.

Em São Paulo, o Masp vem fazendo algo semelhante, postando em sua conta oficial imagens da reorganização de suas galerias de pinturas.

“Há museus que ficaram para trás no tempo, que ainda proíbem fotografias”, diz Systrom. “Enquanto outros já entenderam que nada é mais valioso do que compartilhar suas experiências com centenas de milhares de pessoas.”

O jornalista SILAS MARTÍ viajou a convite do Miami Design District